Aquele das cebolas

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Então, ela se viu chorando, enquanto cortava cebolas. E riu das grossas lágrimas que rolavam face abaixo, pensando em quanto tempo fazia desde a última vez que aquilo tinha acontecido. Não de ela cortar cebolas, mas de ela chorar. Ela que tem aquela já tão conhecida dificuldade, herdada geneticamente, em lidar com os sentimentos. Então, ela ficou ali. Tentando entender como seus olhos vertiam água, apenas água com gosto salgado, sem o mínimo de sentimento ou sensação, nem alegria, nem tristeza, nem alívio, nem dor. Talvez, apenas um pouco de espanto, e saudade. De alguém que certamente riria daquela situação, e lhe tomaria num abraço apertado, dizendo que ela ficava linda até cortando cebolas, mesmo que cortar cebolas não seja lá um cena sublime, poética ou apoteótica para qualquer pessoa que se declare com domínio pleno das faculdades mentais. Terminou seus afazeres. Havia vencido mais uma batalha com os temperos e com o fogão que tentava a todo custo dominar, porque aprendeu que todo afago, por menor que seja, faz bem a quem se quer bem. Tomou um banho demorado. Era a primeira vez que apartavam-se em muitos dias. Esperou a ligação que teimava em não chegar, tentando dominar o sono e o cansaço de um dia que demorou a passar. Finalmente, as palavras. Tinha ansiado o dia todo por elas. Tão duras, tão secas, tão amargas palavras. E descobriu, com uma pontada de desapontamento, que naquela noite, as cebolas não seriam as únicas a lhe fazer chorar. 

Um comentário:

Luiz Sebastião Jr. disse...

Cebolas sempre fazendo parte da literatura... :)

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