Aquele das cebolas

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Então, ela se viu chorando, enquanto cortava cebolas. E riu das grossas lágrimas que rolavam face abaixo, pensando em quanto tempo fazia desde a última vez que aquilo tinha acontecido. Não de ela cortar cebolas, mas de ela chorar. Ela que tem aquela já tão conhecida dificuldade, herdada geneticamente, em lidar com os sentimentos. Então, ela ficou ali. Tentando entender como seus olhos vertiam água, apenas água com gosto salgado, sem o mínimo de sentimento ou sensação, nem alegria, nem tristeza, nem alívio, nem dor. Talvez, apenas um pouco de espanto, e saudade. De alguém que certamente riria daquela situação, e lhe tomaria num abraço apertado, dizendo que ela ficava linda até cortando cebolas, mesmo que cortar cebolas não seja lá um cena sublime, poética ou apoteótica para qualquer pessoa que se declare com domínio pleno das faculdades mentais. Terminou seus afazeres. Havia vencido mais uma batalha com os temperos e com o fogão que tentava a todo custo dominar, porque aprendeu que todo afago, por menor que seja, faz bem a quem se quer bem. Tomou um banho demorado. Era a primeira vez que apartavam-se em muitos dias. Esperou a ligação que teimava em não chegar, tentando dominar o sono e o cansaço de um dia que demorou a passar. Finalmente, as palavras. Tinha ansiado o dia todo por elas. Tão duras, tão secas, tão amargas palavras. E descobriu, com uma pontada de desapontamento, que naquela noite, as cebolas não seriam as únicas a lhe fazer chorar. 

Aquele sobre o cavalo encantado do príncipe branco

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013



Aí eu esperei, esperei, esperei e você chegou. Depois de muitas histórias sobre príncipes e sapos que se metamorfoseiam ao longo do caminho, eis que me deparo com aquele que não se apresentou como personagem principal. Sim, porque exceto pelo de Tróia e o de Fogo, não me lembro de muitos cavalos (foi assim que você foi “pintado”) que mudaram a história do mundo, real ou da fantasia. Não sei sobre os príncipes que andam por aí, salvando as princesas dos dragões, ou salvando os dragões das princesas, ou ainda salvando a si mesmos de dragões e de princesas (acontece também). Não, não sei sobre os príncipes, até porque, a bem da verdade, exceto para minha mãe que assim me considera (as mães são sempre tão otimistas), não sou bem o que poderia se chamar de princesa. Sobre sapos... Ah! Já me deparei com muitos, já tropecei em alguns e já engoli outros tantos. Nesses quase trinta de contos de fada, já me vi diante de todo tipo de personagem e criatura fantástica. E mesmo assim não sei muito sobre muita coisa. O fato é que, em tuas palavras, pra minha sorte, encontrei você. Que me veio assim, sem saber ao certo o que queria, conduzido por mãos amigas, cansado de percorrer longas estradas de histórias sem fim. E ainda bem que, no meio do caminho, encontrei você.  Você que me descreveu da forma mais bonita que alguém poderia. A quem eu amei porque já sabia, ou não sabia, mas, de alguma forma, sentia. Você que me faz querer que o tempo voltasse, porque os longos anos de vida que teremos juntos não parecem o suficiente para todas as risadas, conversas, para todos os beijos e abraços que nos doamos diariamente. Não sei como se comporta um príncipe. Mas sei que você é fiel aos teus princípios, aos teus valores e crenças. Você ama a família e os amigos. E isso é tão raro de se encontrar hoje em dia. Não sei o que um príncipe faz. Mas sei que você me faz querer ser mais. Você me percebe de todas as maneiras, no “alô” de um dia nublado, na tagarelice das minhas aflições, até mesmo no mais absoluto silêncio, onde só a respiração denuncia. E, ao contrário do que dizem os despeitados, é de uma sensibilidade e generosidade sem igual. Não, você não faz o tipo que desfia os sentimentos em poesia, tudo isso te absorvo no olhar. Aliás, você não faz tipo nenhum, pra ninguém. E de repente, é por isso que você faz o meu tipo. Não sei o que um príncipe pensa. Sei que fico imensamente feliz toda vez que concordamos ou discutimos cada pequena ou grande ideia, porque pensar é tão raro hoje em dia. E eu fico aqui tentando traduzir o que sinto. Mas é tudo tão diferente de qualquer coisa que possa ser explicada. O fato é que você veio, e eu posso ser eu quando estou contigo. Não porque eu precise de você, é exatamente porque não preciso. Porque “às vezes a vida é dura demais para ficar sozinho, e às vezes a vida é boa demais para ficar sozinho.” Porque tudo que acontece vem de um querer (mais que bem-querer), de amar e saber-se amado, de gostar de quem me gosta. Porque meu pé procura o teu durante a noite, porque teu abraço é o meu lugar preferido nesse mundo, porque quando estamos juntos, o mundo acelerado, como nossas vidas corridas, parece girar lentamente. Porque a gente ri até chorar. Porque você se alegra quando eu canto com minha voz de cantora de jazz desafinada. Porque juntos vamos conquistar, se não o mundo, os nossos sonhos. Então, te amo. Por ter chegado quando eu menos esperava, quando eu mais precisava, quando eu já não acreditava. Por me fazer viver o amor real, aquele imenso, intenso e sereno, como o mar em dia de calmaria. Por me ensinar a difícil arte da doação. Por firmar e reafirmar, diariamente, o sentimento que nos une. Sei que vão me acusar de ser clichê, mas é assim que é.  As histórias de amor são clichê. E eu digo que, ainda assim, é muita sorte viver uma delas. Não sei o que o futuro nos reserva, mas se o presente é uma pequena amostra do que estar por vir, não tenho nada a acrescentar, senão mais amor, saúde e serenidade, sempre. Para que nos tornemos, um dia, aquele casal de velhinhos resmungões, que não saberiam o que fazer da vida sem o outro. E que nosso final seja o velho conhecido, porém tão esperado: “E foram felizes para sempre”.  Que assim seja. 

"A Quadrilha"

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A famosa Quadrilha desfilava sob os meus olhos. Aquela famosa, de Drummond. E tudo me pareceu ser bem mais comum do que eu supunha. Ocorrendo com uma frequencia tal, quase corriqueira. Naquela noite, de poucas palavras, poucas letras e vogais, monossílabos ecoavam. Tinha ela querendo ele, ele me querendo, eu querendo você, e você, sem saber ao certo o que queria, só chamava por Deus. Normal. Aquelas ironias da vida. Todos querendo algo. Ninguém satisfeito. Ela aceitaria o pouco que ele desse. Ele me ignorou por saber-se não correspondido. Eu me contentei em te absorver por alguns instantes. E você, por sua vez, não sabendo ao certo o que queria, só chamava por Deus. Fim de noite. Quatro seres e a solidão de suas camas macias, numa noite enluarada e fria. Por que? Vai saber. Talvez, porque todos queiramos o certo por motivos errados. Talvez, porque todos queiramos o errado por motivos certos. Dos outros não sei. De mim, sei que te quero por ser você, exatamente assim. E você... Você continua sem saber. Ouça um bom conselho, que como o poeta, te dou de graça, "é inútil dormir que a dor não passa". Pare de pedir ajuda aos céus. "Indecisão é saber exatamente o que se quer, mas achar que deveria querer outra coisa". Siga em frente, porque "o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto." 

*Texto escrito em 16/04/2011

Perguntas...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A gente fica se perguntando por que as pessoas entram nas nossas vidas. E às vezes, acho que tentar responder essa questão é como querer brincar de ser Deus. É certo que eu gostaria de ter te conhecido antes. Quando éramos mais “inteiros”. E aqui, não estou falando da dor na articulação do joelho, ou nas costas. Estou falando de dores bem mais profundas. Queria ter te conhecido antes de me tornar essa pessoa tão incrédula. Naquele tempo em que ainda alimentava alguma ilusão sobre toda coisa que se sentia, porque tudo valia a pena. Queria ter te conhecido naquela época, quando era mais corajosa, diria até, meio inconseqüente. Quando tinha o mundo pra conquistar e muito tempo a perder com isso. Queria ter te conhecido antes. Numa hora em que os únicos medos existentes eram os de palhaço e de barata. Queria ter te conhecido quando eu tinha muito mais sorrisos a oferecer. Quando ainda procurava um sentido que, mais dia, menos dia, chegaria. Quando eu acreditava no poder das cartas de amor, que nunca me pareceram tão ridículas. Mas, por essas coisas inexplicáveis da vida, quis o “acaso” que você só se apresentasse agora. Quando do furacão, restou uma leve brisa. Como a que sopra nas linhas tênues que já se apresentam no meu rosto e acaricia os meus cabelos, cujos os fios brancos surgem em número a cada dia. Eis-me aqui. Tentando me reinventar todo dia. Tentando saber quem eu sou. Tentando entender no que me tornei. Porque foram dias estranhos, aqueles em que você não estava. Não pense que tudo foi ruim, mas algumas marcas, mesmo que mínimas, têm um imenso poder transformador. Então você chega. Penso que é injusto só termos a oferecer os pedaços que carregamos e tantas cicatrizes. Então penso naquela pergunta. O fato é que, de repente, não importa saber a resposta. Talvez, como bem disse um amigo, devamos somente aproveitar tudo aquilo que cada pessoa tem a nos oferecer. Tudo aquilo que podemos dar e receber. Devamos começar a ser mais atemporais. Porque a delimitação do fator tempo pode nos fazer perder tempo demais. Porque por mais que o trem da vida siga o seu caminho, me disseram que as histórias das relações são escritas com tinta-sangue. A cada nova história você deixa um pouco de si e carrega um pouco do outro. Na chegada do trem ao seu destino o que vale são as histórias que você tem pra contar. E como é bom ter histórias pra contar. Então eu volto a acreditar nas cartas de amor, mesmo sendo elas ridículas. Eis-me aqui. Com todas as minhas manias e rabujices. Mas também com todos os melhores sentimentos do mundo guardados. Sentimentos que, de repente, nunca soube dar. E que, por esses motivos que ninguém sabe explicar, guardei. Talvez, por acreditar que alguém, um dia, fosse percebê-los por trás da armadura. “Achei vendo em você, e explicação nenhuma isso requer. Se o coração bater forte e arder no fogo o gelo vai queimar”. Esse poeta é mesmo um artista. Ele também fala que “tornar o amor real é expulsá-lo de você pra que ele possa ser de alguém”. Então o meu é seu, mesmo de um jeito “desajeitado”, que foi o jeito que me restou, enquanto você quiser.

pa-la-vra*

sexta-feira, 20 de julho de 2012

s. f.
Vocábulo provido de significação.
Faculdade natural de falar.
Oração, discurso; pregação, doutrina.
Arte da palavra, a retórica, a literatura.
Dom da palavra, a eloqüência.
De palavra, que cumpre o que promete: pessoa de palavra.
Só ter uma palavra, ater-se ao compromisso.
Medir (ou pesar) as palavras, tomar cuidado no que diz.
Dar palavra a, permitir (o presidente de uma assembléia) que alguém fale.
Pedir a palavra, solicitar permissão para falar, ou o direito de falar.
Direito de palavra, direito reconhecido a qualquer membro de corpo deliberativo de pedir e obter a palavra, nas condições previstas pelo regimento interno.
S.f.pl. Promessas vagas, discursos vãos (por opos. a ações, obras). (V. VOCÁBULO.)f.
Som articulado, que tem um sentido ou significação. Vocábulo; termo. Dicção ou frase. Afirmação. Fala, faculdade de exprimir as ideias por meio da voz. O discorrer. Declaração. Promessa verbal: não falto, dou-lhe a minha palavra. Permissão de falar: peço a palavra.
Loc. adv.
De palavra, de viva voz; oralmente.
Loc. adv.
Pela palavra, absolutamente, literalmente.Ter a palavra, ter permissão para falar numa assembleia.Ter palavra, cumprir alguém aquilo a que se obriga.Palavra de rei, firmeza no que se diz ou promete; qualidade de quem mantém o que diz.
Loc. adv.
Sim; com certeza.

*Fonte: Dicionário web.

Nunca tinha parado pra pensar no significado do verbete. Confesso: achei de uma poesia ímpar. Tão bem conceituado, sob tantas perspectivas, e por isso, nesse momento, elas me faltam. Acrescentaria aqui outros tantos significados, com aquela tal liberdade poética. Mas um, em particular, me escapa pelos poros, desde a última vez que aqui escrevi (e olhe que já faz tempo). Diria que palavra é aquilo que destrói com a mesma (ou até com mais) facilidade que constrói. Acredito sinceramente na força da palavra. Não na forma do “Segredo”. Mas no poder real da palavra, seja ela dita ou não dita. Já pensei em tantas coisas, já falei sobre outras tantas e, geralmente, não tenho medo das palavras, amante que delas sou. De uns tempos pra cá, me preocupa imensamente o que as pessoas ouvem quando falo. Mas como o (a) amante não pode ficar longe do ser amado, eis-me aqui. Outro dia, escrevi sobre a verdade: “há que se considerar que embora, para a maioria, falar, seja ainda a melhor opção, ouvir nem sempre é fácil. A verdade é detentora do poder de provocar reações diversas, esperadas e inesperadas. Há que se considerar o relativismo da consciência do emissor e do receptor. Em tempos em que o absoluto se torna obsoleto num piscar de olhos, é preciso muito cuidado. Qualquer ruído, por menor que seja, pode ser desastroso”. Aqui, substituiria facilmente “verdade” por “palavra”. Talvez porque consciente ou  inconscientemente, pra mim, elas se apresentam conjugadas. É, eu tive medo das palavras. Elas dependem tanto (ou mais) de quem as ouve, do que de quem as pronuncia. Então me calei. Outro dia, me deparei com a seguinte passagem de um livro que sempre me inspira: “Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras”... É que, às vezes, as palavras confudem. Humanos que somos. Também, pudera! Com tantos significados. Foi aí que aprendi a considerar os atos, quando elas me faltam. E deixo às palavras, muitas histórias pra contar.


Frustração

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"Palavras, apenas
Palavras pequenas.
Palavras, palavras,
Palavras, palavras,
Palavras ao vento."

O inevitável

quinta-feira, 7 de julho de 2011

É fato, meu coração corre perigo. Descaradamente, ele traz flores roubadas pra enfeitar teu dia, tua mesa, tua casa. E faz festa quando te vê chegar. E dá risada pra afrontar tua tristeza. E conta estrelas, como se fossem vaga-lumes. E se reveste de luz. E redescobre o fogo, ainda que nele e por ele seja consumido. E colore o céu de azul, com um sol bem amarelo, pra preencher teus dias nublados. E desafia o tempo, retardando cada momento, pra não te ver passar. E se faz bobo, e se faz contente, e se faz amante. E canta desafinado, porque “no peito dos desafinados também bate um coração”. E acelera descompassado, atravessando o samba pra te acompanhar. E tenta juntar os pedaços de você, que nem você mesmo sabe onde perdeu. E fica te olhando. E espera, enquanto você está muito ocupado tentando se refazer. Mesmo assim, todos os dias, ele espera. E se reinventa. E continua te olhando... De repente, ele se lembra dos pedaços que também deixou pelo caminho. Lembra de todas as vezes que ele próprio foi feito em partes. E ele até prometeria não te fazer mal algum, mas aí, cheio de princípios, lembra que promessas são coisas com as quais não se pode faltar. É que pra te recompor, ele se consome um pouquinho mais a cada dia. E ele tem medo. E se exaspera. E adoece. E definha. Tum-Tum. Até que sem esperanças, ele se cansa. Então piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... Inevitavelmente, ele pára.

Palavras vãs e coisas sem sentido

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Por favor, não diga mais nada. Não fale, porque, inexplicavelmente, dói demais ouvir. Passado o ímpeto, dói o enorme vazio que as palavras deixam, onde antes, na ausência de algo mais interessante, havia ao menos paz. Depois, é injusto que eu responda sozinha pela inconseqüência alheia. Tava tudo tranqüilo no meu mundo. Com que direito você vem e estraga tudo? Com que direito você, que mal chegou, invade as pequenas frestas que por descuido ou propositadamente não fechei? Não fale. Qualquer palavra proferida pode parecer inapropriada. Sobre uma coisa você estava certo, os sentimentos em mim costumam ser tão profundos que, às vezes, é quase insuportável senti-los. Eles escapam involuntariamente pelos poros e nada do que eu diga ou faça consegue exterioriza-los por completo. É... por incrível que pareça, eu sinto. Eu sinto. E muito. E sinto por sentir tanto. Aparentemente, no momento, eu sinto sozinha. E isso dói. Poderia ser diferente. Então não fale. Não venha dizer o que sabe ou o que não sabe sobre mim. Porque de mim eu já sei. Era de você que eu queria saber. Porque mais uma vez será em vão. Porque sempre existirá uma história. Sempre existirá um advérbio adversativo seguido de reticências, que por sua vez deixam infinitas possibilidades, onde pra mim sempre se confirma a mais surreal e a menos favorável delas. Sem sentimentos nobres, sem aqueles não tão nobres também. É exatamente igual a música, eu vi você passar por mim, levando o meu encanto. Me restou ficar aqui sendo auto-indulgente, pelo menos uma vez na vida, pra saber qual é a sensação. Até que tudo passe. Porque sempre passa. Não porque é você, mas porque sou eu.

Seria trágico se não fosse cômico

sábado, 21 de maio de 2011

O fato é que existe uma situação com a qual, definitivamente não me sinto à vontade: a morte. Por motivos óbvios, é algo com o qual não sei lidar. Nunca sei o que dizer, porque acho que nada do que eu diga vai aplacar a dor de quem perdeu alguém. Não sei pra onde olhar, nem onde colocar as mãos. Um velório pra mim é quase uma tortura. Vai parecer frio, mas explico. É que o velório é um registro prolongado da dor dos que ficaram. Um registro da sensação de impotência diante dos fatos. Você fica ali remoendo, pensando no quanto a vida pode ser justa ou injusta. E o pior de tudo: você é obrigado a encarar o fato de que um dia também morrerá. E, sinceramente, isso me dá muito medo. Mas o fato é que, pelo menos no velório, todo mundo se ocupa da vida (ou da morte) do morto. À você é concedido o direito de entrar muda(o) e sair calada(o). Ultimamente, outro tipo de evento social, se é que podemos chamar assim, tem me incomodado muito mais que o velório. A festa de casamento. Festa de casamento, quando se está solteira, pode ser um verdadeiro desastre. Não pelos noivos, ou pela festa em si. Tá tudo lindo. Todo mundo brindando. Mas dependendo do seu humor, a noite se resumirá a distribuir sorrisos amarelos e responder positivamente a todas as bobagens que for obrigada a ouvir. Quer ver só? Você tá lá, na sua. Pode estar impecável. Uma verdadeira diva. Sempre tem aquele tio chato que diz: “Você ta mais forte né?!” (Leia-se: você está mais gorda). Aí você tem vontade de responder: "Tenho me esforçado. Quando chegar no teu tipo (barril), eu paro.” Mas você se contém, afinal estamos numa festa, solta o primeiro “Pois é, né?!", e dá um daqueles sorrisos amarelos. Nada vai abalar o seu bom humor. Aí você assiste a cerimônia. Fica por ali, ouvindo a música, se sentindo um peixe fora d’água. Porque em festa de casamento parece que todo mundo só anda aos pares. Como de propósito, somente pra afrontar a tua solidão. Aí chega outro tio, bem legal, e dispara: “Cadê o namorado? Quando é que você vai trazer um?” Pois é, né?! Cadê o namorado? Me pergunto isso todo dia. Pode parecer um pouco de desespero, então você sorri (amarelo)novamente e responde, com uma ponta de esperança, que no próximo casamento ele virá. Hora da noiva jogar o buquê. Sua mãe olha meio cúmplice: “Você vai tentar pegar o buquê?” Para ela não tem por que mentir. “Não sei mãe, vai que eu pegue mesmo. E vai que dá certo”. Vocês riem juntas. Nem tudo está perdido numa festa de casamento. De repente, aquele carinha lindo, de óculos, que você viu na igreja, também sozinho, te chama pra dançar. Vocês dançam. Certo que começa a tocar lambada e você não dança lambada desde os oito anos de idade. Mas tudo bem. Alguns descompassos, nenhuma queda. O que já é um grande feito. Entabulam uma conversa. Amenidades, coisas vãs. Tudo bacana, até a fatídica hora do “Quantos anos você tem?” A cada dia, me convenço mais de que a idade das mulheres incomoda mais aos homens que a elas mesmas. Você mantém a classe e devolve: “Quantos anos você acha que eu tenho?”. Ele te dá 21 anos. Existem algumas hipóteses para tal resposta: 1º O creme anti-sinais está fazendo um puta efeito; 2º O óculos embaçado, a maquiagem e o efeito da luz noturna, resultaram naquela ilusão típica ( a noite todos os gatos são pardos), sem falar no efeito do álcool; 3º Ele viu que estava prestes a botar tudo a perder. Você sorri e fala a sua idade. Pra você, ela (ainda) não se configura como um problema. Aí pronto, o cara mete o dedo no nariz. “Então você é mais velha que eu? Tô louco pra descobrir o que você pode me ensinar”. Ele pediu. Deus é testemunha de que você tentou, mas ele pediu. Primeiro que você não é professora. Segundo que velha é a estrada. “Pois é, né? Não sei se sou mais velha. Não perguntei a sua idade, mas deduzi pela sua conversa e pela sua reação que devo ser.” Se nada tá dando certo, você tem ao menos o direito de rir um pouco, nem que seja da sua própria desgraça. O garoto (agora que você se sente quase senil) ainda insiste em demonstrar toda a sua virilidade, mas o sino bate meia-noite. Hora da Cinderela se transformar em Gata Borralheira. Tentando desesperadamente chegar até a porta de saída, você encontra aquela tia. Toda família tem “aquela” tia. Ela pergunta quem era o menino com quem você dançava. “Eu vi, viu? Ele era bonito.” Você solta o último sorriso amarelo da noite, acompanhado de um “Pois é, né?”. Pra finalizar a história, como desgraça pouca é bobagem, você reencontra um ex, com quem você não falava há pelo menos 10 anos. Ele não pergunta como você está? Se você fez alguma grande descoberta que trouxe alguma contribuição para humanidade? Ele pergunta se você casou. Aquela altura, você responde que sim, que casou, casou duas vezes e enviuvou nas duas. Eles morreram misteriosamente, em dias de TPM, nos quais coincidentemente você se encontra. Os corpos nunca foram encontrados. Ele ri, sem perder a pose, diz que a mulherada hoje em dia tá voando em cima, mas que no momento está solteiro, por opção. “Pois é, né?!” No que depender de mim, vai continuar assim. As badaladas do sino continuam. Au revoir para todos. Você corre , se certificando, a cada passo, de que não deixou nenhum sapato para trás.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

"Deixa estar que o que for pra ser vigora."

Não se afobe, não...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Que nada é pra já...





... Amores serão sempre amáveis...

Aquele sobre o futebol

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Antes que alguém mais perca tempo com comentários futebolísticos ou futeboleiros, como queiram, deixo registrado que foi-se o tempo em que eu sofria como torcedora do esporte nacional. Hoje, tal qual na política, deixo o assunto pra quem entende de verdade. Já joguei futebol (pelo menos tentei). Conhecia pelo nome, time e posição, muitos dos jogadores do campeonato estadual, nacional e, por que não dizer, internacional. Mas hoje, sinceramente, não me emociona tanto assim. Gosto de ir ao estádio, é divertido. Gosto de ver um jogo bem jogado, jogadores talentosos, times com técnica e tática. Mas sei perceber o momento onde se separam a diversão e a paixão. Não abro mão do senso crítico na hora de pontuar e reconhecer as falhas dos times. Do "meu" e dos outros. Não entendo porque as pessoas insistem em dar voltas sobre algo cuja graça, suponho, está em não se chegar a um consenso. Nada contra a disputa saudável. Mas hoje não se discute a superioridade de um time em campo. Depois do final de uma partida, se você quiser saber quem foi o melhor em campo, como foi aquele chute ou aquela defesa espetacular que você perdeu porque foi o escolhido pra pegar a cerveja na geladeira, esqueça. Recorra aos melhores momentos na TV, ou na internet. Para aqueles que se autodenominam torcedores, deixou de ter importância. Os comentários restrigem-se a acusações sobre quem se vendeu, quem subornou, onde mora o juiz que a torcida vai pegar. É macumba. É mala preta, rosa, verde, amarela, um arco-íris de malas sem fim. Não vou nem mencionar aqui os xingamentos, insultos e afins. As pessoas simplesmente se estranham em nome de uma "paixão". Hoje, um amigo (tricolor, diga-se de passagem) que não vejo há muito tempo, falou comigo através de uma das redes sociais. Perguntou como eu estava. Devolvi a pergunta, ao que ele respondeu: "Estou ótimo, o dia ontem foi perfeito, o dia hoje está mais colorido. Tudo na mais Santa Cruz" (Tradução: Meu time venceu, por isso sou a pessoa mais feliz do mundo) E acrescentou: Você deveria estar feliz também. Deveria?? Até deveria, mas por outros motivos. Pimeiro que nem torço pelo time em questão. Reconheço o mérito, parabenizo, mas infelizmente, ou felizmente, a final do Campeonato Pernambucano de 2011, aliás o campeonato inteiro, não acrescentou nada a minha existência. Exceto pelo tempo destinado a escrever essas linhas. Os mais fanáticos que me desculpem. Não concordo, mas respeito. Cada um com seu cada um. É só que eu me recuso a depositar a razão da minha felicidade nas mãos (ou nos pés) de quem quer que seja.

Foi mistério e segredo, e muito mais

quarta-feira, 4 de maio de 2011

"E era um cão vagabundo
E uma onça pintada
Se amando na praça
Como os animais."

O que você está fazendo?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

"Eu estava em paz quando você chegou."

Fico quieto.

sábado, 30 de abril de 2011

"Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, "embonitar" a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito."

Caio Fernando Abreu

Porque foste o que tinha de ser

domingo, 24 de abril de 2011

"Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser."


Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Sobre o tempo de cada coisa

"O que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto."

O Quereres

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim


*Como disse hoje um amigo, Caetano é massa! =)

She

quarta-feira, 13 de abril de 2011



... She may be the mirror of my dreams.


A smile reflected in a stream


She may not be what she may seem


Inside her shell...

Definições

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"SAUDADE é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.LEMBRANÇA é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.ANGÚSTIA é um nó muito apertado bem no meio do sossego.PREOCUPAÇÃO é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair do seu pensamento.INDECISÃO é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que deveria querer outra coisa.CERTEZA é quando a idéia cansa de procurar e pára.INTUIÇÃO é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido. PRESSENTIMENTO é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista (o filme).VERGONHA é um pano preto que você quer pra ser cobrir naquela hora.ANSIEDADE é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja.INTERESSE é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.SENTIMENTO é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.RAIVA é quando o cachorro que mora com você mostra os dentes.TRISTEZA é uma mão gigante que aperta seu coração.FELICIDADE é um agora que não tem pressa nenhuma.AMIZADE é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.CULPA é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.LUCIDEZ é um acesso de loucura ao contrário.RAZÃO é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.VONTADE é um desejo que cisma que você é a casa dele.PAIXÃO é quando apesar da palavra "perigo" o deseja chega e entra.AMOR é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... também não. Um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tem explicação, esse negócio de amor não sei explicar."



*Não tenho certeza quanto a autoria do texto, porém tenho que elogiar a simplicidade e precisão de algumas "definições". Muito criativas. Geniais.

Bom é quando você sente todas elas praticamente ao mesmo tempo.

Parafraseando a cantora: "Se por acaso morrer do coração, é sinal que senti demais"